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Antes de mais desejo um feliz dia a todos quantos me lerem Smile

Gostaria de partilhar convosco duas grandes aprendizagens que fiz  há uns anos atrás:

A primeira delas passou-se há catorze anos. Na altura nada fazia prever que, sensivelmente um ano depois, iria nascer o Infantário “Pimpão”!

Mas a primeira das vivências, ocorreu antes do "sonho Pimpão".

Estávamos em finais do mês de Outubro e o meu coração batia acelerado, pois ia ter a minha primeira entrevista de trabalho, para preencher uma de duas vagas existentes como educadora no Centro Polivalente do Funchal, após ter estado ligada à hotelaria durante sete anos.

Cheguei exausta, porque me perdera pelo caminho. No meio dos nervos e da correria para chegar a tempo, acabei por ir ter a um enorme edifício, que julgava ser o CPF.

Perguntei à senhora da recepção onde estavam a decorrer as entrevistas de trabalho e a frase lacónica aconteceu por entre a surpresa do seu olhar: A equipa está completa!

Nesse momento senti o coração fechar-se. Pensei que já não chegara a tempo!

Mesmo assim, voltei a insistir: -Pensava que a entrevista para preencher a vaga de educadora ia ser feita por um júri… Foi então que esboçou um sorriso e respondeu: - Ah, isto aqui é o Lar da Bela Vista! Deves estar a referir-te ao Centro Polivalente do Funchal, lá é que devem estar a precisar de pessoal!

Acenei afirmativamente com a cabeça, ao que a senhora, estendendo o indicador me mostrou o caminho dizendo que poderia descer pelos jardins do edifício porque davam acesso directo ao CPF, opção que me pareceu muito sensata.

Já a correr ainda lhe perguntei, porque motivo o chão do hall estava coberto de arroz e ela voltou a sorrir dizendo que dois dos seus idosos se tinham casado! (lindo! pensei)

E continuei a correr por entre plantas e arvoredos.

Finalmente cheguei!

Um mês após a minha admissão, já conhecia o “meu grupo de jovens/crianças” relativamente bem. Era um grupo de rapazes entre os 5 e 14 anos, num total de 12.

Quando completassem os 18 anos, pretendia-se que já tivessem autonomia suficiente por forma a serem colocados no mundo laboral. Mas, por enquanto, o Centro seria a sua casa e nós (educadores) a sua “família”.

A sua curta e cruel passagem por esta vida, colocava-os numa posição em que as suas defesas emergiam, sem dó nem piedade, contra toda e qualquer ameaça de sofrimento!

Foi então que durante um jantar assisti à primeira desordem colectiva, do meu grupo!

Um dos rapazes desatou a soltar palavras deveras ofensivas contra outro e o automatismo da mão no garfo junto ao pescoço do rapaz foi de tal forma assustador que apenas tive tempo de levantar a voz e, num tom mais alto do que o meu medo, ordenei: -PAREM IMEDIATAMENTE!

O grupo todo reagiu com silêncio, e aproveitei o espanto para dizer à minha colega que ficasse com metade do grupo, bem como com o rapaz que ofendera o outro, que eu levaria os rapazes que já tinham terminado o jantar e, firmemente, peguei na mão do rapaz que tinha ameaçado com o garfo e disse: -Tu vais ao meu lado! E quando chegarmos ao lar, não vês a telenovela e vais para o teu quarto para pensar no que fizeste, porque podias ter magoado sériamente o teu amigo!

Prontamente, deu-me um safanão retirando a mão da minha e teimava em repetir: “Vou mas é basar! “Vou mas é basar!” (…)

Expressão que os rapazes mais pareciam apreciar e usavam sempre como chantagem quando qualquer coisa corria menos bem.

Enquanto distribuía os outros rapazes pela sala, a minha apreensão era enorme, e o pensamento de que ele poderia realmente fugir apoderou-se de mim.

Sem mais demoras, dirigi-me ao seu quarto.

Entrei e ao vê-lo sentado na cama, respirei de alívio ao confirmar que estava em casa!

Então, perguntei se já tinha pensado bem no seu acto. Mas não obtive qualquer resposta!

A minha intuição levou-me junto a ele e disse-lhe: - Se não me quiseres dizer nada agora, compreendo, quero apenas dar-te um beijo!
Mais rápido do que uma lebre saltou para o andar de cima do beliche e enroscou-se a um canto da cama de forma a ficar o mais longe possível do meu alcance.

Instintivamente trepei o beliche abracei-o com força e dei-lhe um beijo!

Deixou-se ficar quieto na mesma posição quase fetal e aproveitei para dizer-lhe: -

Assim que te sentires mais calmo podes ir juntar-te aos amigos para vermos juntos a novela! Afinal, somos uma família!

Em menos de cinco minutos já estava a entrar na sala de estar.

Segui-o com o olhar e vi-o ocupar o lugar vago do sofá e com a sua mãozinha bateu no espaço vazio ao seu lado! Era o seu jeito de me convidar a sentar junto a si!

Pela primeira vez vira o brilho do seu olhar!

Nesse instante senti que acabara de tocar o coração desta criança, que por via das circunstâncias se tinha cristalizado!

Hoje,  não tenho a menor dúvida, mesmo quando olho para uma "estátua", sei que sempre esteve VIVA e nela habita um coração a palpitar!

Nove meses mais tarde abri o infantário Pimpão, pois percebera que para ser uma pessoa mais feliz teria de continuar a relacionar-me com crianças: Descobrira a minha verdadeira vocação!

Outro ensinamento que desejo partilhar convosco passou-se no segundo ou terceiro ano de existência do infantário Pimpão

Um dia, ao escutar uma conversa entre duas das "nossas" crianças, ouvi o seguinte:

João (6 anos) - Eu cá tenho muitos, muitos carros...e tenho uma pista telecomandada...e tenho muitos aviões…

Teotónio (5 anos)- Tens?

João (continuando orgulhoso)- Tenho! E tenho muito mais coisas...tenho uma piscina na minha casa! E o meu pai tem um porsche! E tu não tens nada dissso!!

Teotónio, sereno e com olhar de felicidade no rosto, respondeu com esta simplicidade:

-Não, não tenho! Na minha casa tenho o arco-íris!

Lindo! pensei e ao mesmo tempo a lagrimazinha deslizava suavemente pela minha face!

E são momentos belos como estes que nos enchem de esperança:- A felicidade afinal é tão simples!

É com este espírito familiar que a equipa do Infantário Pimpão acolhe os vossos filhos, ajudando a contribuir para a educação, formação e consolidação da estrutura das suas personalidades!

E apenas para terminar. Se me perguntarem, como mãe, qual o meu maior desejo para os meus filhos? Respondo sem hesitar: QUE SEJAM FELIZES!

Como directora do infantário Pimpão, o meu maior desejo para as nossas crianças é exactamente o mesmo: QUE SEJAM FELIZES!

Vamos juntos contribuir para A FELICIDADE DOS NOSSOS FILHOS!

-EDUCAR É AMAR! 

 

Madeira, Agosto de 2008

 

A Directora Pedagógica
Susana Abreu